Muroni com Açúcar

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Se entendiam bem, posto que conseguiam se falar perfeitamente sem dizer absolutamente nada de concreto ou plausível.

Na verdade, em função da abrangência de possibilidades geradas pelos monólogos que discutiam em companhia um do outro, tudo o que faziam era coletar dados para possíveis novas hipóteses, as quais não se poderia nunca comprovar, haja vista que não diziam nada claramente.

Assim sendo, nunca ficaram juntos porque não sabiam que o queriam, o que também não importa porque jamais sairiam mesmo daquilo.

 Fim

Era uma vez um casal de poetas.

Um dia, o poeta chega todo pimpão, nas mãos um grande pote:

– Olha o que eu trouxe pra você.

– O que é isso?

– Acho que é creme pros cabelos.

– Acha??

– É, não, acho, quer dizer, tenho quase certeza.

– Onde é que você arrumou isso?

– A Bel deixou aí antes de ir embora. Estava no armarinho do banheiro. Só pode ser creme pros cabelos.

A poetisa abriu o pote e cheirou, meio a contragosto, o conteúdo meio creme meio líquido meio pretejado.

– Isso tá muito estranho. Não tem cara de creme pra cabelos…

– Claro que é, só pode ser. A Bel usava um monte dessas coisas na cabeça.

A poetisa analisa quase com rigor científico a gororoba estranha. Na falta de coisa melhor pra fazer, e como fosse virginiana e não resistisse a uma promoção ou amostra grátis, como era o caso, terminou por passar algumas vezes o creme nos cabelos. A fim de dar um cunho otimista à história e não desgostar a platéia, digamos que o mesmo não surtiu efeito algum.

Bom, passaram-se alguns anos e, um dia, desavisadamente, a pobre poetisa dá de cara com um out-door enorme com uma inconfundível foto do tal do creme ao descer a escada rolante do metrô.

Quando chegou em casa, perguntou ao poeta:

– Lembra um pote grande, branco e verde que você trouxe um dia pra mim, quando a Bel foi embora?

– Sei… um cosmético.

– Éééé… o cosmético…. mas  não era cosmético não, sabe? Descobri hoje na Barra Funda.

A poetisa mostra a foto ao poeta que, mais pimpão que da primeira vez, desata em gostoso riso:

26-06-09_1952

Pois que a mocinha morreu.

Em angústias mil, havia pedido à amiga conselhos sobre quando deveria ligar para o mocinho. A amiga, na melhor das intenções “faça um charme”, aconselhou: “Hoje é terça, pois ligue só na sexta.” Mas a pobre não resistiu à espera e bateu com as cinco antes mesmo de tomar o telefone ao gancho.

Chegando ao céu, enfrenta uma fila relativamente grande. Final-de-semana, notórios dias de aumento de óbitos. À sua vez, é chamada por um São Pedro distante e aparentemente muito ocupado:

– Causa mortis?

– Ansiedade.

– (humpf) Você morreu de quê, minha filha?

– De ansiedade por causa do…

Nisso São Pedro ergue os olhos por sobre os óculos, enfadado.

– Vejamos o seu prontuário. Mulher, aproximadamente trinta anos, branca. Causa do óbito: desidratação profunda em decorrência de falta de alimentação e relaxamento intestinal, agravados pelo uso absurdamente excessivo de tabaco.

– Mas veja bem, Sr. Santo, se eu não estivesse tão ansiosa, não teria ficado sem comer, muito menos teria fumado tanto. Na verdade, eu morri mesmo foi de Amor.

São Pedro deixou sua prancheta no balcão, tirou os óculos, olhou-a circunspecto e perguntou (não poderia ser…):

– Ocupação?

– Eu sou poetisa…

– GABRIEL?! Liga no subsolo AGORA.

(tamborilar de dedos)

– LIGAÇÃO….

– Alô, Sr S.? Aqui é São Pedro. Tá, tá tudo bem sim, só uma coisa… tem algum problema aí na triagem? Não? Porque tem uma pessoa aqui se dizendo poetisa, S. Já não tinha ficado estipulado que os poetas iriam direto pr’ai, S.?

– Sei quem é, Pedro, eu mesmo que a mandei pra vocês. Ela chegou aqui falando que tinha morrido de Amor, não sabia o que fazer com a menina. Há mais de século e meio ninguém aparecia por aqui dizendo que morreu de Amor, a segunda fase do romantismo já acabou faz tempos, os procedimentos foram todos incinerados pelos modernistas. Você sabe como é, a cada meio século nós renovamos os arquivos…

– Não tem jeito, S.?

– Desculpa, Pedro, mas desta vez não rola. Que é que eu vou fazer aqui com uma mocinha que morreu de Amor? Vai encher a cabeça dos outros de romances e outras baboseiras, é melhor mantê-la ai antes que suas melações sobre mocinhos e mocinhas subvertam a ordem local.

– Fuuuuuuuuuu!

Profundamente contrariado, São Pedro dá as coordenadas à ela.

– Este é o número do seu protocolo. Procure não perdê-lo até que chegue a sua carteirinha. Siga por este corredor, terceira nuvem à direita e apresente-o ao almoxarifado.

– Mas….

– PRÓXIMO!

OFICINA DA PALAVRA – CASA MÁRIO DE ANDRADE BARRA FUNDA

 Rua Lopes Chaves, 546 – Barra Funda – São Paulo/SP

Tel: (11) 3666-5803 / 3826-4085

e-mail: casamariodeandrade@assaoc.org.br

Funcionamento segunda a sexta-feira – 12h às 22h sábados – 9h às 14h

 Legenda (S) – Atividades na Sede (E) – Atividades Externas

 

LITERATURA LITERATURA WORKSHOP DE POESIA E SARAU – 15 vagas (S)

Coordenação: Andréa Muroni

4 a 18/2 – quartas-feiras- 19h30 às 21h30

Público-alvo: interessados com conhecimento intermediário

Faixa-etária: a partir de 18 anos

Seleção: carta de interesse

Inscrições: 26/1 a 30/1

– Estou com uma dor no céu da boca…
– Hããã?
– É. Dor no céu da boca. Na verdade é uma espécie de queimação, tipo uma azia buco-celestial, sabe ? Desde ontem.
– De onde é que você tirou isso?
– Como assim de onde tirei isso? De mim, ué, do meu corpo. Provavelmente dos meus centros nervosos. Sou uma mulher sensível, pô!
– Você está louca.
– Louca por quê? Me dê uma razão, uma unicazinha, que comprove que meu céu da boca não possa doer.
– Ah, razão, assim, baseada em fatos concretos, eu não tenho não; mas é que nunca ouvi falar em alguém que tenha tido dor no céu da boca.
– Nunca ouviu porque é uma inculta.
– Se você vai levar a conversa pra esse lado…
– Desculpa, foi apenas uma constatação. Veja só, eu tenho uma amiga, por exemplo, que vira e mexe tem dores nas sobrancelhas.
– Você está me tirando…
– Não estou, não. Não é sempre, ela me disse, mas periodicamente as suas sobrancelhas doem.
– Imagine, isso é tudo conversa mole.
– Não estou entendendo porque tanto ceticismo. E gratuito, heim?! Analisemos: as sobrancelhas ficam no rosto, não ficam?
– Ficam.
– E no rosto, por trás da pele, têm veias com sangue, não?
– Tem, mas o que é que tem a ver a veia com a dor?
– Como o que é que tem a ver?? Tem tudo a ver. Ainda mais que as sobrancelhas são vizinhas das têmporas que são, todo mundo sabe, muito sensíveis.
– Você já está delirando. Pra mim essa conversa não faz o menor sentido.
– Claro que faz, Val. Suponhamos que a raiz da sobrancelha encrave ou até quem sabe inflame, heim, heim? Não vai doer, é?
– Encravar vá lá, mas inflamar? Por que diabos haveria de uma raiz de sobrancelha inflamar?
– E eu é quem sei? Quem sou eu, nesta vida de mistérios, para decifrar os recôncavos segredos do corpo humano? Os desconhecidos caminhos pelos quais…
– Tá bom, tá bom, cancela a metafísica. Mas, me diga, e o céu da boca?
– Ué, também faz parte do corpo humano, tem pele e por trás da pele têm veias…
– Lá vem você com essa história de veias de novo. E o que é que faz doer? Não venha me dizer que é um dente encravado…
– Tsc, tsc, tsc, assim não há a menor condição de continuar a conversar com você. Quer saber? Vou desvendar, e vai ser agora, quais são todos os mecanismos que movem a dor pelo espetacular corpo humano e comprovar a minha teoria.
Depois de alguns minutos, ela volta, absorta, um dicionário entre os braços.
– Ahá! Ouça bem o que vou lhe dizer: “Dor: sensação desagradável, variável em intensidade e em extensão de localização, produzida pela estimulação de terminações nervosas especiais.” Heim? Pegou?
– Peguei o quê
– Como o quê?
– É só isso?
– Só isso, só isso, que é que você queria?
– Ué, pra quem saiu daqui toda emplumada, clamando aos quatro ventos que iria desvendar todos os mecanismos da dor e sei lá o que mais, me aparece agora com uma reles definição.
– Reles não senhora, que esse dicionário é conceituadíssimo.
– Está bom, mas e daí? Que raio isso tem com o céu da tua boca?
– Nossa senhora, heim? A gente também que explicar tudo, dá licença. Presta um pouco de atenção, se for possível. “(…) variável em extensão de localização” hãã?, “produzida pela estimulação de terminações nervosas especiais.”
– ???
– Bingo! É isso. Terminações nervosas especiais. Veja bem, não são quaisquer terminações nervosas, são somente as especiais.
– E quem disse que há terminações nervosas no céu da tua boca, quanto mais especiais? Ou lá na sobrancelha da fulana tua amiga?
– Nossa, como ás vezes é difícil conviver com a ignorância alheia. É claro que há terminações, senão não haveria de doer. Capitte?
– Mas pra mim não dói mesmo, acho que isso é tudo fruto dessa tua imaginação desarvorada. Mas suponhamos, olha só, eu não estou concordando com essa sandice, estou só considerando uma situação hipotética, suponhamos que realmente sua teoria tenha cabimento, essas tais terminações nervosas seriam estimuladas por…
– Comida. Só dói quando eu como. Não toda vez que como, mas tudo começou com um doce de figo, sabe, e depois até um caldinho lá que tomei me doeu e… peraí.
– Que é que foi agora?
– Olha só, olha o que achei aqui no dicionário: “Dor cansada: dor surda.”
– O ouvido está doendo também agora? Ou será o lóbulo? Já sei, já sei, encravou a cartilagem.
– Continuando: “Dor surda: dor que nem é forte nem aguda. Dor cansada”
– Santo deus, onde vai dar esse papo? Diga aí, Sherlock, qual a grande nova conclusão?
– Essa é a descrição perfeita da minha queimação. Não dói nem forte nem aguda porque é dor cansada. Claro, só pode ser isso. A dor quer doer mas está lá meio cansada, com preguiça, então não vai doer uma cabeça ou um dente, que dão muito trabalho, sabe como é, acaba doendo mesmo um céu da boca ou uma sobrancelha que são mais fáceis, né? Dói mas não é aquela coisa assim de dor. Eu acredito que ela tenha cumprido o seu papel. É. É dor, tem de doer, doeu. Assim, simples.
– Minha nossa, você endoidou de vez.
– Endoidei nada, faz muito sentido.
– Faz, faz sim. Então é isso, tá? A conversa está muito boa, deveras construtiva, mas eu já vou indo.
– Já, tão cedo…
– Pois é, meu bom senso está começando a doer.
– Cética.
– Maluca.

Estava num posto de saude.

Uma velha senhora com os cabelos quase totalmente brancos, contrastando com o negro da pele cansada. Mas não era a cor de seus cabelos que chamava a atenção mas, antes, os claros sinais de que haviam permanecido com bobes por muito tempo. É provável que a noite tenha sido de desconforto; por causa deles e da ansiedade, talvez mal tenha podido conciliar o sono. Mas o sacrifício valera a pena. Agora seu cabelo estava muito arrumado, grandes cachos crisalhos enrolados para dentro.

Toda sua pessoa denotava um esmero para aquela situação: as correntes douradas, a roupa correta, a velha bolsa de alças puídas. Seu ser exalava uma dignidade difícil de se encontrar. Dignidade de gente simples, de uma vida sem grandes arroubos. Aquela dignidade de quem passa pela vida com muita dificuldade, nunca se deixando seduzir pelos sustos.

Um sorriso muito claro nos lábios já frouxos. Havia tanta sabedoria naqueles lábios e cachos de bobes, tamanha falta de complicação em arrumar-se tanto e deveras para se consultar num posto de saúde de bairro, tão anônima que mal seria notada não fosse pela grandeza.

Uma vida de plácidos acontecimentos.

 Foi chamada pela médica e saiu do consultório com as mãos cheias de papéis, o rosto cansado demonstrando emoção diante de tantos acontecimentos que estariam por vir.

 Contou, rapidamente, para a visinha da sala de espera que dever

a fazer vários exames. Depois, contou tudo novamente para a recepcionista distraída, mostrou-lhe os papéis. Decerto não era nada grave, apenas rotina, já que transparecia em sua fisionomia uma certa alegria, como que um orgulho até. Estivera certa em se arrumar tanto; agora, era merecedora de toda atenção do médico, ele até a estava indicando a outros. Deveria ter se comportado muito bem, ter sido uma boa paciente.

Era um ser de cuja vida, outros deveriam se ocupar.

Despediu-se tão sorridente, atarefada e simples, que encheu a tarde do mundo de ternura.

Queridos

Tive o prazer de ser agraciada, este ano, com o 1º lugar do 4º Concurso Literário de Suzano.

No próximo dia 16 de dezembro haverá no Centro Cultural um evento de lançamento da Revista Trajetória Literária #4 com a devida sessão de autógrafos e distribuição da revista aos participantes.

A quem puder comparecer, meus sinceros agradecimentos. Beijo

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Lançamento dia 16 de dezembro – terça – 20h
Local: Centro Cultural de Suzano
Rua Benjamin Constant, 682
Centro – Suzano – SP