Publicado por: Andréa Muroni em: 22 agosto, 2009
Era uma vez um casal de poetas.
Um dia, o poeta chega todo pimpão, nas mãos um grande pote:
- Olha o que eu trouxe pra você.
- O que é isso?
- Acho que é creme pros cabelos.
- Acha??
- É, não, acho, quer dizer, tenho quase certeza.
- Onde é que você arrumou isso?
- A Bel deixou aí antes de ir embora. Estava no armarinho do banheiro. Só pode ser creme pros cabelos.
A poetisa abriu o pote e cheirou, meio a contragosto, o conteúdo meio creme meio líquido meio pretejado.
- Isso tá muito estranho. Não tem cara de creme pra cabelos…
- Claro que é, só pode ser. A Bel usava um monte dessas coisas na cabeça.
A poetisa analisa quase com rigor científico a gororoba estranha. Na falta de coisa melhor pra fazer, e como fosse virginiana e não resistisse a uma promoção ou amostra grátis, como era o caso, terminou por passar algumas vezes o creme nos cabelos. A fim de dar um cunho otimista à história e não desgostar a platéia, digamos que o mesmo não surtiu efeito algum.
Bom, passaram-se alguns anos e, um dia, desavisadamente, a pobre poetisa dá de cara com um out-door enorme com uma inconfundível foto do tal do creme ao descer a escada rolante do metrô.
Quando chegou em casa, perguntou ao poeta:
- Lembra um pote grande, branco e verde que você trouxe um dia pra mim, quando a Bel foi embora?
- Sei… um cosmético.
- Éééé… o cosmético…. mas não era cosmético não, sabe? Descobri hoje na Barra Funda.
A poetisa mostra a foto ao poeta que, mais pimpão que da primeira vez, desata em gostoso riso:

Publicado por: Andréa Muroni em: 21 agosto, 2009
Pois que a mocinha morreu.
Em angústias mil, havia pedido à amiga conselhos sobre quando deveria ligar para o mocinho. A amiga, na melhor das intenções “faça um charme”, aconselhou: “Hoje é terça, pois ligue só na sexta.” Mas a pobre não resistiu à espera e bateu com as cinco antes mesmo de tomar o telefone ao gancho.
Chegando ao céu, enfrenta uma fila relativamente grande. Final-de-semana, notórios dias de aumento de óbitos. À sua vez, é chamada por um São Pedro distante e aparentemente muito ocupado:
- Causa mortis?
- Ansiedade.
- (humpf) Você morreu de quê, minha filha?
- De ansiedade por causa do…
Nisso São Pedro ergue os olhos por sobre os óculos, enfadado.
- Vejamos o seu prontuário. Mulher, aproximadamente trinta anos, branca. Causa do óbito: desidratação profunda em decorrência de falta de alimentação e relaxamento intestinal, agravados pelo uso absurdamente excessivo de tabaco.
- Mas veja bem, Sr. Santo, se eu não estivesse tão ansiosa, não teria ficado sem comer, muito menos teria fumado tanto. Na verdade, eu morri mesmo foi de Amor.
São Pedro deixou sua prancheta no balcão, tirou os óculos, olhou-a circunspecto e perguntou (não poderia ser…):
- Ocupação?
- Eu sou poetisa…
- GABRIEL?! Liga no subsolo AGORA.
(tamborilar de dedos)
- LIGAÇÃO….
- Alô, Sr S.? Aqui é São Pedro. Tá, tá tudo bem sim, só uma coisa… tem algum problema aí na triagem? Não? Porque tem uma pessoa aqui se dizendo poetisa, S. Já não tinha ficado estipulado que os poetas iriam direto pr’ai, S.?
- Sei quem é, Pedro, eu mesmo que a mandei pra vocês. Ela chegou aqui falando que tinha morrido de Amor, não sabia o que fazer com a menina. Há mais de século e meio ninguém aparecia por aqui dizendo que morreu de Amor, a segunda fase do romantismo já acabou faz tempos, os procedimentos foram todos incinerados pelos modernistas. Você sabe como é, a cada meio século nós renovamos os arquivos…
- Não tem jeito, S.?
- Desculpa, Pedro, mas desta vez não rola. Que é que eu vou fazer aqui com uma mocinha que morreu de Amor? Vai encher a cabeça dos outros de romances e outras baboseiras, é melhor mantê-la ai antes que suas melações sobre mocinhos e mocinhas subvertam a ordem local.
- Fuuuuuuuuuu!
Profundamente contrariado, São Pedro dá as coordenadas à ela.
- Este é o número do seu protocolo. Procure não perdê-lo até que chegue a sua carteirinha. Siga por este corredor, terceira nuvem à direita e apresente-o ao almoxarifado.
- Mas….
- PRÓXIMO!
Publicado por: Andréa Muroni em: 26 janeiro, 2009
OFICINA DA PALAVRA – CASA MÁRIO DE ANDRADE BARRA FUNDA
Rua Lopes Chaves, 546 – Barra Funda – São Paulo/SP
Tel: (11) 3666-5803 / 3826-4085
e-mail: casamariodeandrade@assaoc.org.br
Funcionamento segunda a sexta-feira – 12h às 22h sábados – 9h às 14h
Legenda (S) – Atividades na Sede (E) – Atividades Externas
LITERATURA LITERATURA WORKSHOP DE POESIA E SARAU – 15 vagas (S)
Coordenação: Andréa Muroni
4 a 18/2 – quartas-feiras- 19h30 às 21h30
Público-alvo: interessados com conhecimento intermediário
Faixa-etária: a partir de 18 anos
Seleção: carta de interesse
Inscrições: 26/1 a 30/1
Publicado por: Andréa Muroni em: 16 janeiro, 2009
Publicado por: Andréa Muroni em: 14 janeiro, 2009
Estava num posto de saude.
Uma velha senhora com os cabelos quase totalmente brancos, contrastando com o negro da pele cansada. Mas não era a cor de seus cabelos que chamava a atenção mas, antes, os claros sinais de que haviam permanecido com bobes por muito tempo. É provável que a noite tenha sido de desconforto; por causa deles e da ansiedade, talvez mal tenha podido conciliar o sono. Mas o sacrifício valera a pena. Agora seu cabelo estava muito arrumado, grandes cachos crisalhos enrolados para dentro.
Toda sua pessoa denotava um esmero para aquela situação: as correntes douradas, a roupa correta, a velha bolsa de alças puídas. Seu ser exalava uma dignidade difícil de se encontrar. Dignidade de gente simples, de uma vida sem grandes arroubos. Aquela dignidade de quem passa pela vida com muita dificuldade, nunca se deixando seduzir pelos sustos.
Um sorriso muito claro nos lábios já frouxos. Havia tanta sabedoria naqueles lábios e cachos de bobes, tamanha falta de complicação em arrumar-se tanto e deveras para se consultar num posto de saúde de bairro, tão anônima que mal seria notada não fosse pela grandeza.
Uma vida de plácidos acontecimentos.
Foi chamada pela médica e saiu do consultório com as mãos cheias de papéis, o rosto cansado demonstrando emoção diante de tantos acontecimentos que estariam por vir.
Contou, rapidamente, para a visinha da sala de espera que dever
a fazer vários exames. Depois, contou tudo novamente para a recepcionista distraída, mostrou-lhe os papéis. Decerto não era nada grave, apenas rotina, já que transparecia em sua fisionomia uma certa alegria, como que um orgulho até. Estivera certa em se arrumar tanto; agora, era merecedora de toda atenção do médico, ele até a estava indicando a outros. Deveria ter se comportado muito bem, ter sido uma boa paciente.
Era um ser de cuja vida, outros deveriam se ocupar.
Despediu-se tão sorridente, atarefada e simples, que encheu a tarde do mundo de ternura.
Publicado por: Andréa Muroni em: 27 novembro, 2008
Queridos
Tive o prazer de ser agraciada, este ano, com o 1º lugar do 4º Concurso Literário de Suzano.
No próximo dia 16 de dezembro haverá no Centro Cultural um evento de lançamento da Revista Trajetória Literária #4 com a devida sessão de autógrafos e distribuição da revista aos participantes.
A quem puder comparecer, meus sinceros agradecimentos. Beijo
Lançamento dia 16 de dezembro – terça – 20h
Local: Centro Cultural de Suzano
Rua Benjamin Constant, 682
Centro – Suzano – SP
Publicado por: Andréa Muroni em: 1 outubro, 2008
Por Andréa Muroni e Julio Castro, os roteiristas das estrelas
Tomada 1, take 1
Sara Jane acorda e se espreguiça. A cama é redonda; no criado-mudo esquerdo há um vaso com flores de meia de seda e arame (amarelas e vermelhas). No criado-mudo direito brilha um Troféu Imprensa (a luz deve incidir sobre este como se fossem os raios do sol, destarte a janela estar fechada).
Tomada 1, take 2
Sara Jane põe as mãos sobre o rosto, enquanto faz que “não” com a cabeça. Sua aia (Luciana Adami) adentra o quarto com uma bandeja na mão.
Aia: – Bom dia, patroa, vamos abrir a roda? Digo, essa janela?
Sara Jane: – Bom dia; por favor, não! Tive um pesadelo horrível…
Aia: - Ohhhh!!!! (levando a mão à boca)
Neste momento, surge sobre a cabeça de Sara Jane uma nuvenzinha que vai ganhando toda a tela até que, em primeiro lance temos a imagem de seu sonho {gravar com bastante gelo seco}
Meu, tem que rolar um som do roupa nova aqui!!!!! Tipo: amanheci sozinhuuuuu, na cama um vaziu iuiu, meu coração que se foi sem dizer se voltava depois!!!! O que aconteceu, pra vc partir asii-iiim??????? Se te fiz algo errado perdão, volta pra mim….
Então, tem que rolar esse som na parte do sonho que antecede um pesadelo (pq só é pesadelo se no começo tá tudo bem, pq se ta tudo mal desde o começo, como se sabe que começa um pesadelo?
Sonho:
(música de fundo: “Nega do Cabelo Duro”)
Meu! Não falei!!!! Sonho (bom no começo)= música do roupa nova
Tipo, começa o pesadelo (sonho mau): nega do cabelo duro!!!
Sara Jane: Luis, Luís, por favor meu rei, preciso muito falar com você…
Luis Caldas: Diga, jóia rara.
Sara Jane: Nem sei como começar (dá um suspiro profundo, vira o rosto pro lado e depois olha fixo para Luis Caldas, olhos de determinação) (((Tharam!!!! Tharam!!!! Tcharam…. tchatcharatcharam….. aquela música Assim Falou Zaratustra!!!!_
Luís Caldas: Haja amor!!!
((((tipo, uma abelha pousa na região da vulva de sara Jane
Sara Jane: Sua situação tá ficando apertadinha, meu rei. Na verdade, o que eu quero te dizer é que… a gravadora não vai mais lançar o seu acústico.
((a gravadora vai lançar mais uma remasterização do unpluged acústico de regravações ao vivo da releitura do anticoncepcional radioativo que antecedia ao aborto elétrico, que hoje é a capital inicial, ou seja, o quarentão gostosinho do dinho ouro preto cantando, bravinho, veraneio vascaína e, lascivo, primeiros erros. E olha que ele acaba com a natasha!))
(close em Luis Caldas)
Luis Caldas (com olhos arregalados): Anjo do céu!!! Mas por que??
((((e entra o anjo do céu! E o anjo do céu é o sidnei magal. (UAU!!!!)
Sidnei Magal (o anjo do céu): Por causa dessa escova marroquina que você fez. Cortaram do projeto você e a Daniela Mercury
(((corta em miniflashback, com daniela mercury gritando para alguém que parte numa carruagem da idade média, gritando, tadinha:
- eu sou é encaracoladinha!! Eu sou é encaracoladinha!!!….
e cai, ralando joelhinhos na terra do chão ))
Continua.
((((aqui muda tudo!!!! Deixemos de lado a idéia de um filme kisch e mostremos que somos alternativos e seremos vistos nos espaços unibanco da garbosa rua augusta…))))))
A cena de choro de daniela mercury gritando que é encaracoladinha vai cedendo ao barulho do teclado até que a expressão de sara jane se torne um emoticon digitado numa janela do msn ;-O
—-aqui um movimento absurdo de câmera tem que deixar claro que o que foi escrito até então era conversa entre dois irmãos que se Amam mas estão entediados com a vida real e se dispõe a uma experiência ilícita ((a conversa no msn vira tempo real, e que lá na frente vai virar passado pra virar futuro novamente, entendeu? Tipo assim, eu tive uma idéia agora que quero que no final do filme a idéia é a de que todos os tempos – presente, passado e futuro, acontecem no mesmo instante e que ninguém é sensível para sacar isso, nesse instante, agora mesmo, ——- então, aí volta o movimento maluco de câmera que faz com que volte a ser uma conversa no tempo presente e que o expectador comece a sacar essa afirmação absurda que faremos sobre a simultaneidade dos três tempos como uma possibilidade plausível e automática, de tão simples.
Fechamos pensando em ser paola bratcho!
Publicado por: Andréa Muroni em: 11 setembro, 2008
Era uma vez uma moça boba.
Era uma vez uma moça boba que estava fazendo aniversário.
E nos dias de seus anos, todo ano, era a mesma bobice: se alguém ligava pra moça, ela chorava porque tinham se lembrado; se alguém não ligasse, chorava por não gostarem dela, de modos que passava o dia naquela choradeira, por uma coisa e também pela outra.
Naquele ano não seria muito diferente, não fosse pelo fato de estar trabalhando justamente perto da casa de seu irmão. Oh, o tal do seu irmão… ela, que sempre fora a filha única desnutrida de carinho e atenção, a solitária, a esquisita, a jogada no vento. Aquela que chegara ao exagero (aos 7 anos de idade) de se trancar no quartinho nos fundos da casa e fazer greve de fome por um irmão que aplacasse a sua solidão. Pois agora esse irmão existia e estava perto dela, nem podia acreditar.
Muito embora não admitisse, fazia planos mentais de surpresa com as festividades e as parabenizações. Inclusa no pacote de fantasias estava, clara e forte, a imagem de seu irmão entrando pelas portas de vidro, quiçá com bexigas na mão, seu cunhado atrás, sorrindo entre o confuso de cantar parabéns ou respeitar as plaquinhas indicativas de silêncio. Ela ficaria surpresa, levaria as mãos à boca e, imediatamente, seus olhos grandes se encheriam de água, cacimbas festivas abarrotadas de emoção.
Esperou o dia todo e, como a ligação não viesse, em seu íntimo se convencia a cada minuto mais que eles iriam fazer exatamente o que ela estava sonhando, talvez trouxessem até mesmo um pedaço de bolo ou 4 potinhos de flan de baunilha para que pudessem dividir.
Passou a tarde, o final de tarde; chegou a noite, rodou a noite, aproximou-se a hora de ir embora e nada, a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e n-a-d-a deles dois.
Como confiava no conhecimento empírico, senso comum e parafernálias auxiliares afins, dizia a si mesma durante todo o trajeto do ônibus: “a esperança é a última que morre” e contava encontrá-los na entrada do metrô, mesmo sem bexigas, o que importava, realmente, era terem se lembrado dela.
Andou pelo terminal a caminho do metrô feito autômata, procurando entre as dezenas de passageiros por aqueles que bem que podiam estragar a surpresa se ela não prestasse atenção porque eram distraídos e não enxergavam bem – nenhum dos três – e eles nem sabiam onde é que ela descia e aquele raio de metrô também tinha tantas portas!!
Entrou na estação olhando para trás, tropicando na guria que vende guloseimas na escadinha, chocolates, chicles e salgadinhos de isopor. Nem pediu desculpas.
Pela roleta passou sem já esperança alguma. Talvez estivessem atrasados. Talvez, mesmo, se tivessem esquecido.
Era uma vez uma moça boba numa história triste que não teve graça e, muito menos, um final feliz.
O lugar era pobre, paupérrimo.
À beira do terreno barracos e lama, um ou outro sobrado sem reboco, uns poucos com janela.
O dia estava triste, triste como a cor do céu, pesado chumbo. Triste com a garoa fria que não deixava subir pipa. Triste como era ser chegada a hora do feijão e onde?
Só que, mais triste do que todas essas coisas era aquela que todos temiam porque sabiam, chegaria, mas ninguém fazia que sabia, era melhor que fosse assim.
Como poderiam, caso quisessem, ignorar a alegria diária sob a lona azul, já meio puída, mas tão grande e imponente? Aquela lona guardava, sob si, toda felicidade possível e contida pelo amargor do dia-a-dia. Guardava sorrisos a se perder as contas, mesmo que se tivessem tantos dedos. Guardava os segredos máximos da magia, a obediência dos macacos, as fuleragens dos palhaços. Escondida, sob a lona, espreitava a morte as suas vítimas, esperando por um vacilo, um tropeço, que uma fita se soltasse, uma moto perdesse o freio, o leão se lembrasse de quem era. Esperava, a morte, esquecida no meio de toda aquela alegria.
O cheiro da pipoca atiçava a fome e alguns sonhos. Sonho de querer ser mais, de estar lá dentro, do outro lado da lona, de ver tudo mais do que pelos cantos e rasgos. Atiçava um sonho que era como uma promessa de algo melhor, quase como se algo de bom estivesse, é certo, para acontecer. Chegava a dar emoção, esse sonho, uma vontade meio que de chorar, esse pensamento de que havia uma saída e a vida era maior que o barraco, maior que as vielas, maior até que aquele circo.
Aquele circo que, naquela manhã triste, aquela manhã que não permitia pipa no seu céu, aquele circo que partia.
Na janela, olhos perdidos, o menino sofria a partida. Ele que tinha conseguido, uma vez, entrar pela porta da frente, depois de ajudar a limpar as coisas malcheirosas que bichos tão bonitos não deveriam fazer. Ele, tão pequeno e quase sem futuro já, pé no chão e vazio de carinho.
Via partir, o menino, o circo. E com ele o fedor dos bichos, os aplausos nas noites escuras, as latinhas que ele juntou tantas. Partia com o circo a alegria e aquilo que parecia um sonho, mas devia ser só ilusão.
Publicado por: Andréa Muroni em: 17 julho, 2008
Era assíduo freqüentador de tradicional bar do Bexiga.
Assíduo e incômodo: era do tipo que bebia e saia enchendo o saco de meio mundo, garçons, clientes, músicos, qualquer um.
Tinha simulado um distúrbio mental a fim de se aposentar mais cedo e, vez ou outra, por ocasião da perícia ou quando lhe desse na telha, assumia o personagem (com bastante propriedade, diga-se). Além do que, não suportava ser contrariado.
De seu set list de sandices, fazia parte bater na mulher, já bêbado, e voltar para o bar, para beber um tanto mais.
Numa dessas, já tendo bebido meio mês de seu auxílio-doença, foi para casa dar umas pancadinhas na dona patroa e voltou pro bar para fiar o pagamento do mês seguinte e acabar com a alegria de quem cruzasse o seu caminho.
Chegou e criou caso com a recepcionista, com o barman, com três casais que bebericavam no mezanino. Depois, tirou o músico do palco, tomou seu violão e começou a se proclamar a nata dos especiais, enquanto arrotava no microfone e desafinava o violão do cantador.
Saiu, então, de mesa em mesa tentando vender seu cd e xingando quem, por motivos incontestáveis, não o comprava. Xingado o bar todo, saiu distribuindo o disco, gratuitamente, para aqueles vermes ignorantes que não conhecem música de qualidade, etc e tal.
O dono da casa, não suportando mais a situação, botou-o para fora debaixo de bons e merecidos sopapos.
Inconformado com aquela injustiça, aquela desfeita, aquele desaforo para com um cliente tão fiel e digno, o ébrio correu ao orelhão mais próximo e chamou a rádio-patrulha; se necessário, mobilizaria todas as polícias disponíveis ao bem-estar dos cidadãos, principalmente cidadãos como ele, homens de imaculada postura e cônscios de seus direitos.
Para que a viatura viesse logo, afinal, era sexta-feira e aqueles gambés deveriam estar por aí, fingindo que trabalhavam enquanto, na verdade, estavam mesmo era atrapalhando a vida de quem só queria se divertir, beber um pouco, fumar unzinho, um teco, coisa e tal, disse ao telefone que era oficial reformado e que estava sendo sumariamente agredido pelo proprietário do estabelecimento.
Ao que chegou a polícia, armou um grande espetáculo que, acredita-se, deve ter espantado muitos clientes. Xingou, esbravejou, indignou-se e entregou seus documentos sem parcimônia: faria um B.O., abriria um processo, o que fosse necessário, levaria aquela briga até o fim.
Franzindo as sobrancelhas, o policial olhou o documento, consultou o amigo ao lado, foi ao rádio, e deu ordem de prisão: o “oficial” estava sendo procurado fazia tempo, em virtude das queixas feitas por sua esposa, sendo que, naquela noite mesmo, já tinham ido à sua casa para tentar prendê-lo, sem sucesso.
Saiu algemado, sob os risinhos irônicos dos guardas: a prisão mais fácil desde há muito, muito tempo.
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